EXPERIÊNCIA DE PREMIAÇÃO: OS CRITÉRIOS DE JULGAMENTO NO CONCURSO AGRINHO

 

 

CERVI, Rejane de Medeiros

 

 

Há sete saberes “fundamentais” que a educação do

 futuro deveria tratar em toda sociedade e em toda

 cultura, sem exclusividade nem rejeição, segundo

 modelos e regras próprias a cada sociedade e a cada

 cultura: as cegueiras e a pertinência do conhecimento,

a condição humana em sua diversidade,

 a identidade terrena, o enfrentamento das incertezas,

 a compreensão humana mútua e a consciência ética

que alicerça a construção da cidadania terrestre.

EDGAR MORIN, 1999.

 

 

 

Os propósitos do Programa Agrinho e o sentido da

 participação escolar.

 

Muitas das ações institucionais nascem de sonhos, de boas intenções, de escolhas racionais, mais além da prescrição burocrática. Muitas das ações institucionais, ainda que bem brotadas, apequenam-se quando não enfrentam os limites próprios de  suas contingências, isto é, quando não assumem os riscos de inventar novos futuros experimentando presentes inéditos.

 

O Programa Agrinho, criado e implementado pelo SENAR/PR, de 1996 a 2003, justificou-se sob o propósito de gerar um movimento pró-planeta, pró-condição humana, junto às crianças e jovens do meio rural. Estas crianças e jovens crescem em um contexto onde a desinformação básica os torna sujeitados, como outros segmentos da população interiorana, aos efeitos de uma sociedade enlouquecida por um vertiginoso progresso tecnológico e por impiedosas motivações consumistas.

 

Como resposta a tal cenário, o Programa Agrinho se delineou com a intenção de promover algum entendimento no que concerne à adequação das atitudes humanas no consumir, no produzir e no criar. Não se arrefeceram, os propósitos deste Programa, frente à condição de miséria na qual a escola brasileira, de um modo geral, se debate. O argumento de que em toda a tragédia educacional brasileira, há um aspecto central, fundamental, definitivo e incontornável: crianças e adolescentes estão saindo da escola sem saber ler, escrever ou fazer contas simples em função do que resta inócuo falar de “preparo para a cidadania”, “dotar o estudante de uma visão crítica” (CASTOR, 2004), não constitui referência restritiva às ações do SENAR. Ao contrário. É sobre esta realidade que as intervenções educacionais se tornam mais desafiadoras, mais interessantes, mais necessárias. A escola precisa de ajuda e lá está o Agrinho, entre outros parceiros, para aprofundar e legitimar as suas ações de específico significado para o contexto rural.

 

Assim é, que, com a anuência do sistema escolar público, em cada circunstância institucional, o Programa Agrinho instalou-se neste espaço, convertendo os integrantes de cada comunidade em obreiros, em espectadores, em atores e em autores de um processo de valorização do currículo e de qualificação da vida da escola, adensando o movimento pró-condição humana e pró-planeta.

 

Conectar pautas, que relevam a vida humana e a vida no planeta, com a vida das crianças e dos jovens do meio rural não foi difícil. Os temas de trabalho, emergidos da tensão e do conflito da vida contemporânea, constituíram objeto prioritário de um exercício de formação para o qual o Programa não poupou empenho.

 

Deste modo, em sua preocupação inicial, o Agrinho esteve voltado para a preservação da saúde e do meio ambiente. Ao expandir-se, outras questões sociais relacionadas ao empreendedorismo, ao trabalho e consumo, à cidadania, desembocaram no cotidiano do Programa, agora, numa convergência explícita em relação aos parâmetros curriculares nacionais introduzidos pela última reforma escolar, especialmente retratados nos temas transversais[1].

 

Entre os artifícios incentivadores e sustentadores do desencadeamento do Programa, foram incluídos a presença de agentes de mobilização e a contribuição de especialistas temáticos, a instrumentalização e a disponibilização de recursos didáticos, mecanismos de supervisão e a realização de evento culminante, o concurso com premiação.

 

Participar do processo formativo e participar do concurso: duas etapas distintas e assim tomadas em sua avaliação, mas sempre duas faces de uma mesma moeda. Nos dois casos, trata-se de uma questão de adesão. Entretanto, o fator “premiação” impôs uma dinâmica de julgamento à parte, extra-escolar, mais complexa, mas também, mais abrangente e compreensiva. Sobretudo, inédita, e, por tal, muito mais merecedora de reflexão. Daí, a justificativa do presente artigo.

 

 

A participação no processo formativo.

 

Como todo processo intencional, o Programa Agrinho tem se realizado sobre uma organização específica que favorece a mobilização e o engajamento comunitário-escolar. A participação neste processo é induzida, isto é, animada e canalizada para objetos de interesse formativo específico. A despeito desta indução, a participação docente e, por conseqüência, discente, em qualquer das etapas, é voluntária.

 

Na sedimentação dessa participação, é imprescindível promover o desencadeamento de ações sistemáticas de sensibilização, estimulação e mobilização. Anualmente, pois, sob o comando da Supervisão Regional do SENAR-PR, estabelece-se e restabelece-se contato com as instâncias administrativas das redes escolares - Secretarias Municipais de Educação e Núcleos Regionais da Secretaria de Educação do Estado - no sentido de definir as temáticas a serem privilegiadas pelo Programa Agrinho, cada ano, de acordo com o interesse local. Desta forma, a progressiva e reincidente participação das escolas, dos docentes e de seus alunos e alunas, junto ao Programa, deriva de ações administrativas simples, mas regulares.

 

Assumidos os interesses temáticos, as mesmas instâncias administrativas encarregam-se do levantamento de necessidades, articulação e organização de eventos para reforço de capacitação de professores. Dentro das redes escolares, os docentes alistam-se às atividades, já por adesão voluntária.

 

A capacitação do docente para o trabalho com os temas transversais tem se constituído em um dos principais desafios da revitalização do trabalho escolar. Os temas, em sua complexidade, atualidade e exigência de contextualização, supõem a sensibilização de professores e professoras para a mais criativa mediação dos novos conhecimentos mediante caminhos didáticos, estratégias de aprendizagens e interações sociais pertinentes (TORRES e CERVI, 2002).

 

A especificidade dos temas com os quais o Programa Agrinho se relaciona suscita, obrigatoriamente, a atualização docente, no sentido de facilitar a discussão dos temas, confrontando noções e situações de aprendizagem além de estratégias metodológicas ainda não tão usuais na escola brasileira comum e sua inserção contextual[2].

 

Assim, sob encomenda local expressa, o SENAR/PR tem proporcionado respaldo informativo-formativo básico nos eventos de reforço de capacitação, mediante a contratação de especialistas palestrantes e fornecimento generalizado de material didático auxiliar elaborado também sob responsabilidade deste órgão. 

 

Deste modo, grandes encontros foram programados com o intuito de proporcionar o requerido reforço da capacitação docente. Antes realizados em cada Município, tais eventos passaram a acontecer em escala regional, preservados os interesses comuns sem excluir as motivações singulares. Pode-se observar, aqui, que, nos eventos em escala regional o contágio e os resultados em termos de receptividade se tornam visíveiss. Os encontros “esquentam” a adesão docente. Além disso, é importante que professores e professoras se encontrem, que interajam, que cooperem entre si, que se ajudem, troquem idéias, que se tornem poderosos enquanto agentes das boas novas.

 

Os especialistas temáticos, na condição de palestrantes e, em geral, autores dos materiais didáticos oferecidos, desenvolvem um trabalho de duração mínima de quatro horas sobre o tema escolhido. É quando se dá oportunidade aos docentes de relacionar conhecimentos prévios com novas informações. A atuação dos especialistas e o envolvimento dos professores e professoras em capacitação recebem atenção supervisora especial. A supervisão do Programa AGRINHO, nesta etapa, é feita por supervisores regionais do SENAR, os quais acompanham os eventos em sua integralidade, e pela coordenação do Programa, que visita e prestigia pelo menos um décimo dos eventos. Integrantes da equipe do Departamento de Aprendizagem Rural e consultores contratados para elaboração de materiais e para o desenvolvimento do Programa também são chamados para exercerem supervisão complementar.

 

A adesão definitiva dos professores ao Programa Agrinho se dá após a capacitação vivenciada. Neste momento, os docentes definem propostas e encaminham parte de suas atividades em classe, o que implica em realizar abordagens variadas. Nos últimos anos, foram desenvolvidos projetos de pesquisa em classe, em muitos casos, com intervenções concretas em ambientes determinados.

 

Durante todo o processo, então, os docentes escolhem, com ampla liberdade, as estratégias didáticas e as abordagens. Observou-se, em todos estes anos, que sua participação tem se concretizado sob a inspiração e limites de expectativas e disponibilidades singulares. Os professores e professoras trabalham sozinhos ou em cooperação. Em decorrência destas condições,  tem sido possível constatar uma relativa diversidade de trabalhos, enfoques e vivências. 

 

Na visão do Programa Agrinho, entende-se que o coroamento da participação no processo é traduzido, especialmente, pela reorganização do conhecimento e sistematização das experiências vivenciadas por alunos, alunas, professores e professoras. Seu resultado: uma memória, um juízo, um compromisso firmado. Um documento em forma de desenho, de redação, de relato de experiência. Ás vezes, muitas vezes, a notícia de uma intervenção realizada. Um resultado, enfim, digno de ser conhecido e apreciado nas escolas e por todas as comunidades.

 

 

A participação no concurso.

 

Para valorizar as vivências proporcionadas pelo processo formativo e dar oportunidade de irradiação das inovações e conquistas pedagógicas estimuladas pelo Programa Agrinho, criou-se o Concurso Agrinho.

 

O Concurso Agrinho define-se como uma situação onde são justapostas as produções escolares realizadas no contexto do Programa Agrinho, para efeito de concorrência, classificação, premiação e divulgação. Tal configuração processual supõe, necessariamente, a execução de um processo de avaliação que promova a culminância de um julgamento específico. Pela vinculação programática do Concurso, este processo de avaliação, para efeito de julgamento, classificação e premiação, constitui prerrogativa da direção do Programa Agrinho.

 

É livre a concorrência entre alunos e alunas de cada escola. Entretanto, a inscrição no concurso junto ao SENAR/PR tem um caráter representativo. Para a sua inscrição, as produções escolares discentes são selecionadas, em seu contexto, pelos docentes e pela instituição escolar. Fica a cargo da direção a seleção de apenas um desenho e uma redação por nível e modalidade em cada escola.

 

É livre a concorrência das experiências pedagógicas, podendo ser inscritos todos os docentes que participaram do Programa Agrinho (capacitação) e apresentarem um relato comprovado de uma vivência respectiva.

 

O trabalho de seleção realizado pelos sistemas, sob a luz de critérios escolares, é entendido aqui, como decisão  pré-classificatória de estrita responsabilidade da direção das escolas.

 

Em princípio, portanto, todas as produções escolares previstas e verdadeiramente ocorridas sob a supervisão das escolas e do SENAR podem ser inscritas formalmente pela administração imediata do respectivo sistema de ensino. Na ocorrência deste encaminhamento, confere-se o principal aval institucional para a devida apreciação ulterior. Ou seja, este aval implica na consideração de que os trabalhos foram realizados pelos próprios docentes (experiência pedagógica) e discentes (redações e desenhos), em sala de aula, sob a supervisão da escola e do docente, respectivamente. Desta forma, a participação no concurso ganha legitimação e controle.

 

As produções escolares inscritas devem estar enquadradas, ainda, nos temas definidos regionalmente, de acordo com prioridades adstritas à programação anual do SENAR/PR e das administrações locais envolvidas.

 

A partir do encaminhamento das produções escolares pelas escolas e pelas administrações dos sistemas de ensino, acolhe-se e faz-se a triagem de todo o material, reorganizando os acervos concorrentes para submissão à apreciação e juízo das comissões julgadoras. Todos os trabalhos inscritos são respeitados e reconhecidos como expressão de empenho pedagógico e tratados em condição confidencial desde a sua chegada até a edição dos resultados. O Concurso Agrinho, pela sua administração, dispensa este tratamento com o maior cuidado ético.

 

O Concurso Agrinho constitui uma celebração e representa o encerramento de um ciclo de intervenção específica do SENAR/PR, no âmbito do Estado. Tem um caráter essencialmente motivador, porque premia e divulga. No entanto, é bom lembrar que o valor das vivências promovidas pelo Programa Agrinho transcende o significado do Concurso. Daí a participação estar restrita aos segmentos escolares que aderiram às fases precedentes do Projeto Agrinho, a saber: a capacitação docente e as vivências pedagógicas.

 

 

         AVALIAR, JULGAR, CLASSIFICAR RESULTADOS

FORMATIVOS FORA DO CONTEXTO ESCOLAR

 

 

O julgamento dos trabalhos e produções escolares, afeto a bancas julgadoras especialmente constituídas, rege-se por uma filosofia que reitera o valor da experiência infantil, na apreensão de sua realidade e na decodificação das informações pelas suas concepções, o valor da autenticidade da expressão da criança que aprende, que se compromete com o apreendido e que comunica seus sentimentos com fidedignidade.

 

Não há formatos fechados, matrizes constritivas e nem decisões programadas para a apreciação dos trabalhos discentes e docentes. No entanto, alguns critérios avaliativos gerais regem o processo apreciativo do Concurso Agrinho, desde o seu início.

 

No que se refere aos trabalhos de desenho, seja da educação infantil, seja da educação especial, a autenticidade, o tema e a sua representatividade de enlace com o cotidiano infantil prevalece sobre a firmeza do traço, por exemplo, ou do simples uso das cores. Aqui, é normal que a composição de cada desenho possa provocar diferentes impactos sobre cada um dos julgadores. E é no encontro das diferentes percepções e dos diferentes argumentos que enaltecem cada trabalho que se combinam juízos e surge a ênfase valorativa que o classifica. Não há ficha técnica para apreciação do trabalho infantil.

 

Quanto aos trabalhos de redações, critérios lingüísticos podem sobressair, inclusive alertados pelos estudiosos da área que venham a integrar as comissões respectivas. No entanto, há que se considerar, com prioridade, questões de conteúdos, e, principalmente, de atitudes constatáveis na comunicação. Os temas transversais se debruçam sobre o cotidiano da criança e é este cotidiano que se espera ver revisitado nas redações. Erros de ortografia podem pesar menos frente a reflexões sensíveis, a composições poéticas, a abordagens críticas, construtivas. A análise lingüística é especialmente útil para levantar hipóteses sobre a autenticidade da produção. Pensar, escrever com um padrão não usual para a faixa etária abrangida pelo Concurso pode delatar falsidade ideológica na condução do trabalho concursante. Todos os estilos de comunicação são aceitos.

 

Não obstante, aqui se torna clara, mais uma vez, a diferença existente entre a avaliação escolar e o julgamento no contexto do Concurso. De certa forma, estas duas situações se complementam, pois os trabalhos inscritos emergem de uma seleção preliminar no âmbito de cada classe, pela mão de seu docente, e, posteriormente, no âmbito de cada escola, pela mão de seus orientadores, supervisores ou diretores. São, estas, as duas instâncias que filtram, em um primeiro tempo, o que a comunidade escolar considera de melhor em sua produção, quase sempre, segundo critérios restritamente escolares convencionais. Daí reconhecer que cabe ao julgamento, realizado no contexto do Concurso, transcender o formalismo ainda vigente na cultura escolar. Afinal, trata-se de vislumbrar a emergência de atitudes infantis em ação e refletidas mediante percepções progressivamente complexas e interessantes ao exercício responsável da cidadania. Outra vez, insiste-se no enlace da criança com o seu cotidiano.

 

Por outro lado, e no que concerne ao julgamento da experiência pedagógica, atribui-se valor principal ao modo crítico de pensar e de agir do professor e da professora e à sua agilidade no criar estruturas para conectar pautas cotidianas do trabalho pedagógico com temas da existência humana e planetária. Pode-se resumir que, em se tratando do trabalho pedagógico, o Programa Agrinho, ao distinguir experiências, valoriza, sobretudo, a demonstração de saberes inerentes àquele que educa em um presente cheio de dilemas, em convergência com um paradigma inventivo conforme descrição de BERTRAND e VALOIS [3]: saber-fazer, saber-pensar, saber-compartir, saber-comunicar, saber exercer a solidariedade, saber, enfim, atribuir significado à experiência de ensinar-aprender.

 

Nesta categoria, há um maior número de expectativas de “virtudes” nos trabalhos concursantes: fundamentação sócio-pedagógica, estratégia metodológica, originalidade da abordagem e/ou da utilização de recursos, espaço para a autonomia da aprendizagem, oportunidade de interatividade discente, relação com o cotidiano, mobilização comunitária, comunicação, diversidade de conteúdo, criação e manipulação de recursos auxiliares e qualidade dos recursos de comprovação, por exemplo, são referências para destaque classificatório.  O realce de tais virtudes é discutido no âmbito da Comissão Julgadora, mediante relatos individualizados. Aqui, todos os Relatórios de Experiência Pedagógica inscritos são reapresentados mediante uma distribuição aleatória entre os integrantes das Comissões, relatados, valorizados, um a um.

 

Além do que foi exposto, o empenho político e administrativo que dá suporte às participações nos sistemas escolares, também é submetido a valoração e reconhecimento. Premia-se a intensidade da atuação individual dos municípios junto ao Programa Agrinho.

 

Ainda que orientadas por critérios básicos, as bancas julgadoras recorrem a critérios suplementares, sempre que necessário, e são soberanas nas suas decisões, respeitados os resultados de consenso. Os casos não previstos podem ser resolvidos pela Comissão Julgadora. As decisões tomadas pela Comissão Julgadora não são passíveis de recurso [4].

 

Por tudo o que se mencionou até o momento cabe insistir no entendimento de que a avaliação que promove o julgamento para premiação distingue-se, objetivamente, das práticas da avaliação da aprendizagem adotadas na escola. Enquanto a avaliação escolar situa-se como mecanismo de gestão da aprendizagem, constituindo-se em processo articulado e sistemático que objetiva dar suporte às decisões escolares ... de aprovar, definir situações de recuperação, promover, classificar, atender necessidades e interesses especiais, melhorar, aperfeiçoar o processo de aprendizagem, o processo de ensino, a proposta formativa da escola ( CERVI, 2003) , a avaliação que julga e classifica trabalhos num cenário de competição é única, definitiva e irreversível.

 

Apesar do seu caráter terminal, a avaliação dos trabalhos e produções escolares para o julgamento que classifica e premia deve implicar, por isso mesmo, na adoção de princípios que harmonizem a dinâmica seletiva. No caso do Concurso Agrinho, incluem-se os seguintes princípios:

 

·      Transparência: Todo julgamento deve se servir, de modo explícito, de critérios gerais, conhecidos e aceitos. Cabe uma discussão preliminar na instalação das comissões que avaliam trabalhos de concurso, no sentido de afinizar os ânimos avaliadores.

 

·      Abrangência: Os trabalhos inscritos no Concurso Agrinho são avaliados em várias instâncias, inclusive e primeiramente, na escola. Assim, o padrão e o juízo escolar são contemplados, à raiz do processo seletivo-classificatório, sendo complementada, a avaliação, por critérios de relevância mais ampla pelas comissões julgadoras.

 

·      Compreensividade: Em princípio, todos os trabalhos inscritos são submetidos a apreciação e se apresentam com potencial classificatório. A única indicação de exclusão de trabalhos concorrentes se funda na desobediência temática.

 

·      Flexibilidade: A avaliação dos trabalhos no Concurso Agrinho não se serve de “gabaritos” para confronto de expressão. A forma encontrada para neutralizar a polarização de ângulos de análise se respalda na representatividade interdisciplinar que inspira a composição das bancas julgadoras. Os especialistas da área pedagógicas dialogam com os especialistas temáticas e os gestores dos sistemas envolvidos. Garante-se, com esta fórmula, um intercâmbio enriquecedor nas comissões assim estruturadas.

 

Ao se tratar de julgamento competitivo, isto é, que classifica e distingue o mérito da produção escolar, portanto, é imprescindível que os sujeitos que concorrem pertençam a universos se não homogêneos, próximos, passíveis de serem submetidos a comparações relativas. Por tal razão, na classificação das produções escolares suscitadas pelo Programa Agrinho foram adotados denominadores (tertium comparationis) diversificados. Isto é, foram definidas categorias concorrentes – níveis e modalidades de ensino, tipos de produção escolar, sujeitos - de modo a proporcionar uma base de confronto capaz de viabilizar classificações dentro de limites estabelecidos.

 

Sob tal orientação, as produções escolares têm sido inscritas e apreciadas de acordo com a seguinte categorização:

 

·        Níveis e modalidades escolares: educação infantil, educação especial, 1a. à  4a. série do ensino fundamental, 5a. à  8a. série do ensino fundamental.

 

·        Tipos de produção escolar: desenho, redação, relato de experiência pedagógica, relatório municipal.

 

·        Concorrentes: alunos e alunas, professores e professoras, municípios.

 

CATEGORIAS DE PARTICIPAÇÃO NO CONCURSO AGRINHO

 

Níveis e modalidades escolares

 

Concorrentes

 

Tipo de trabalho

 

Desenho

Redação

Experiência pedagógica

Relatório consolidado

Educação infantil

Alunos/

Alunas

 

 

 

 

Educação especial

Alunos/

Alunas

 

 

 

 

Ens.Fund. 1a. a 4a. série

Alunos/

Alunas

 

 

 

 

Ens.Fund. 5a. a 8a.série

Alunos/

alunas

 

 

 

 

Educação básica

Professores/ professoras

 

 

 

 

Conjunto do sistema

Município

 

 

 

 

 

 

Em face da extensão territorial do Estado do Paraná, aplica-se, suplementarmente, uma classificação distributiva dos trabalhos concorrentes, homomorfa à regionalização que configura a descentração das ações programáticas do SENAR/PR. Ou seja, os trabalhos inscritos no Concurso são agrupados e cotejados dentro de cada região administrativa. Minimizam-se, com uma classificação/premiação geográfica, os efeitos das desigualdades regionais existentes, ao se evitar a projeção de um “padrão estadual” de desenvolvimento para as respostas que as escolas pretensamente devessem apresentar junto ao Concurso. Há, entretanto, uma classificação e premiação final correspondente à escala estadual. Mas, aí,  os trabalhos regionais já foram galardonados.

 

 

         UM JULGAMENTO INTERDISCIPLINAR.

 

         Conforme o instituído e sacramentado na consolidação do Concurso Agrinho, as comissões julgadoras são constituídas por “membros de destaque na comunidade do Estado, indicados pela instituição promotora do concurso”.

 

Neste sentido, as indicações para a constituição das comissões julgadoras têm obedecido a critérios de representatividade profissional e institucional, particularmente afinizada com o objeto dos trabalhos e o mundo educacional.

 

Exige-se, da parte das instituições convocadas pelo SENAR/PR para colaborar no processo de julgamento dos trabalhos inscritos no Programa Agrinho, nomeações oficiais de profissionais familiarizados com a realidade escolar, para que a sua participação contribua à qualificação desse processo. As instituições têm liberdade, portanto, de fazer a melhor seleção de seus técnicos, de modo a garantir a integridade das comissões julgadoras. Na representação institucional, as Secretarias Estaduaos do Meio Ambiente e da Educação têm assento cativo nesse processo.

 

O SENAR/PR tem, ainda, um especial cuidado com a composição das comissões julgadoras de modo a conferir-lhes um caráter interdisciplinar. Como se sabe, o objeto dos trabalhos do Concurso Agrinho inscreve-se nos “temas transversais” que integram o currículo contemporâneo da escola brasileira, expondo facetas diversas de conteúdo e de sua aplicação. Deste modo, pretende, a composição interdisciplinar, facilitar o diálogo entre os integrantes das comissões, fazendo com que o juízo de cada integrante se complemente com o do outro, ou seja, proporciona-se o conflito e a reconciliação de argumentos distintos de valoração dos trabalhos sob análise e julgamento.  

 

 

A dinâmica do consenso no âmbito das comissões

julgadoras.

 

A prática do Concurso Agrinho, nestes últimos cinco anos, propiciou a sedimentação de condutas pré-estabelecidas que viabilizam a apreciação de um número avantajado de trabalhos.

 

Quando se trata do julgamento dos trabalhos discentes, existem dois momentos distintos na classificação dos trabalhos: (1o.) todas as produções escolares são lidas por, pelo menos, três avaliadores, e, bem apreciadas, convertem-se em “destaque” (anotação de, ao menos, uma estrela); (2o.) as produções escolares destacadas (com alguma estrela) tornam-se alvo compulsório de apreciação de todos avaliadores, os quais realizam uma análise atenta, corroborando, ou não, com a distinção estrelada; (3o.) constituída a coleção de trabalhos estrelados, esta é submetida à leitura de todos os integrantes das comissões, quando, então, se aplica um critério nomotético normativo, o qual considera a valoração da produção individual em função do conjunto (grupo) a que pertence, conferindo-se a classificação final. As definições neste processo valorativo são alcançadas por exaustiva discussão dentro de cada Comissão, e, em casos de extrema dificuldade decisória, entre Comissões.

 

Quando se aprecia os trabalhos docentes, a dinâmica é mais lenta. Do confronto dos relatos e averiguação de detalhes constantes em cada dossier docente, processa-se uma triagem progressiva até alcançar a definição final da classificação sob premiação. O material é mais denso e nenhum componente do Relatório pode ser desprezado. O critério nomotético normativo é mantido. Isto quer dizer, que, a classificação final, seja regional, seja estadual, apenas se dá a partir da visão (qualitativa) de conjunto das produções docentes. Por tal razão, não se recorre a fichas de qualificação burocratizadas que reduzem a apreciação à soma de pontos de medidas estanques de indicadores aplicadas a fragmentos do Relatório docente. Tal fosse o modelo adotado, dispensar-se-ia as comissões, substituindo-as por programas de computação.

 

Ao  definir a premiação para o Município, a classificação para a premiação considera a organização do Relatório da Secretaria de Educação Municipal, a política adotada pelo sistema, a expressão de adesão manifesta, o empenho pedagógico geral manifesto, as repercussões.... Todavia, não há implicações no sentido de uma necessária correspondência entre trabalhos docentes e discentes premiados e a classificação do Município Agrinho. Um município sem premiados nas categorias docente e discente pode ser distinguido pelo seu esforço, pela densidade da participação de sua rede, etc..

 

A decisão final sobre cada classificação é retirada, quando não da unanimidade, do consenso das apreciações dentro das comissões julgadoras. Os casos de difícil conciliação e/ou de empate podem ser resolvidos por fórmulas ponderadas aplicadas à prerrogativa de autonomia individual de pontuação exercida pelos julgadores ou por outras lógicas aprovadas previamente em cada Comissão.

 

 

         CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O reiterado consentimento dos sistemas escolas em suas distintas instâncias e a participação recorrente de crianças, jovens e docentes, assim como a qualidade da produção escolar participante, constituem-se manifestações reveladoras da contribuição do Programa Agrinho na construção de uma cultura curricular mais pertinente frente às necessidades da nossa contemporaneidade.

 

O Concurso Agrinho, por seu turno, deu lugar à prática de um modelo de avaliação revitalizado pelo imperativo ético das abordagens transversais. A avaliação exercida neste Concurso ultrapassa as referências avaliativas escolares ainda correntes, freqüentemente calcadas em operações técnicas e critérios formais, mediante as quais apenas se faz um confronto mecânico entre objetivos e resultados. No Concurso Agrinho, atitudes e compromissos foram entronados pela sutileza do julgamento exercitado. Por isso e a despeito de sua condição educacional não formal, o SENAR pode gerar e dispor de uma memória indiscutivelmente útil ao sistema escolar convencional.

 

Face a estas e outras constatações, pode-se afirmar, finalmente, que o Programa Agrinho tem sido um digno parceiro na consolidação da esperada relação construtiva da criança e do jovem não só com o atual meio rural, mas com a sociedade do futuro, fomentando o respeito pela condição humana e pela vida do planeta.

 

         Referências BIBLIOGRÁFICAS

 

BERTRAND, Y.; VALOIS, P. Paradigmas educacionais. Escola e sociedades. Lisboa: Horizontes Pedagógicos, 1994. 278 p.

CASTOR, B.V.J. Ler, escrever, contar. Curitiba:Gazeta do Povo. 11/6/2004 p. 14.

CERVI, R.M. Perspectivas e contextos na avaliação da aprendizagem. Curitiba: IBPEX, 2003. 72 p.

MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez. Brasília, DF: Unesco. 2000. 118 p.

TORRES, P. L. ; CERVI, R.M. A educação ambiental e sua prática pedagógica na escola. Curitiba: Serviço Nacional de Aprendizagem Rural – SENAR, 2002. 28 P.

TORRES, P. L. ; CERVI, R. M. Programa Agrinho: uma história de resultados, 1996/1999. Curitiba: Serviço Nacional de Aprendizagem Rural - SENAR, 2001. 122 p.

 



[1] Os temas transversais integram conteúdos de elevado ter social e moral e profunda conexão com o cotidiano cultural brasileiro. Além disso, implicam em um tratamento metodológico que busca cobrir a complexidade que retrata a realidade mediante a leitura simultânea das deferentes manifestações de um mesmo fenômeno. Por isso, diferem das disciplinas em si. A transposição metodológica, que supõe, serve-se de abordagens sobre problemas, encaminhadoras de exercícios de discussão e de investigação. Os temas transversais começaram a ser editados a partir de 1996, quando o Programa Agrinho já estava concebido, instalado e desenvolvendo esta mesma filosofia.

[2] A pedagogia da pesquisa tem integrado a principal orientação do Programa Agrinho nos últimos anos.

[3] BERTRAND, Yves; VALOIS, Paul. Paradigmas educacionais. Escola e sociedades. Lisboa, Horizontes Pedagógicos, 1994.

[4] Ver Regulamentos respectivos.